Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia

(Adenocarcinoma cervical) Tipos especiais de adenocarcinoma da cérvice uterina

Hart WR. Symposium part II: special types of adenocarcinoma of the uterine cervix.
Int J Gynecol Pathol. 2002 Oct;21(4):327-46.

A freqüência tanto relativa quanto absoluta do adenocarcinoma do colo uterino tem aumentado. Histologicamente, a grande maioria corresponde a adenocarcinoma puro de células endocervicais. Um pequeno número corresponde a outros tipos como o carcinoma basal adenóide (epitelioma), adenoma maligno (adenocarcinoma de desvio mínimo) e adenocarcinoma mesonéfrico.

CARCINOMA BASAL ADENÓIDE (EPITELIOMA)

Esta entidade perfaz menos de 1% do total de adenocarcinomas da cérvice. Freqüentemente é confundido com o carcinoma cístico adenóide. Ambas os carcinomas se assemelham em alguns aspectos: afetam tipicamente mulheres pós-menopausadas, estão freqüentemente associados a componente neoplásico escamoso e derivam de células de reserva multipotenciais. Em contrapartida, possuem diferenças importantes quanto ao prognóstico: o carcinoma cístico adenóide é um tumor extremamente agressivo com prognóstico pobre e o carcinoma basal adenóide possui prognóstico excelente.

As pacientes são assintomáticas, quase todas possuem esfregaço cervical anormal, geralmente demonstrando alteração escamosa. A média etária do carcinoma basal adenóide é 71 anos. Nenhuma das mulheres apresenta tumorações grosseiras ao exame físico. As lesões são descobertas acidentalmente em espécimes de conização ou histerectomia obtidos para investigação de esfregaço alterado. A profundidade da invasão estromal é em média de 4,3 mm, variando de 2 a 10 mm. Associação de lesão neoplásica escamosa está presente em mais de 90% dos casos, estando geralmente associada à NIC 3. Devido a seu excelente prognóstico, o tratamento pode ser conservador com conização clássica. Cirurgia radical ou radioterapia, como comumente é realizada em outros carcinomas estádio IB, é desnecessária. Não se encontrou nenhum linfonodo metastático nas pacientes que se submeteram à linfadenectomia. Não existem relatos de recorrência do tumor. Quando outros tumores estivem associados, estes devem ser diagnosticados separadamente e tratados de acordo.

ADENOCARCINOMA DE DESVIO MÍNIMO (ADENOMA MALIGNO)

O adenoma maligno geralmente é definido como um subtipo especial composto predominantemente por glândulas endocervicais neoplásicas altamente diferenciadas, que pode simular epitélio endocervical benigno. Pacientes com adenoma maligno variam em idade de 25 a 72 anos (média de 42 anos) Eles geralmente apresentam sangramento genital, podendo estar presente descarga mucóide ou aquosa. O esfregaço pode não revelar o tumor, porém existe a presença de células glandulares atípicas.

Ao exame, a cérvice freqüentemente apresenta lesões exofíticas polipóides ou nodulares. Em pequeno número de casos, a cérvice não revela nenhuma alteração. Descrições sobre os prognósticos de pacientes com adenoma maligno não são uniformes. Enquanto alguns investigadores descrevem pobre prognóstico, outros verificam prognóstico relativamente favorável similar a outros adenocarcinomas cervicais bem diferenciados. Metástases para linfonodos é comum, enquanto disseminação hematogênica é excepcional. As recorrências ocorrem quase sempre na região abdominal ou pélvica.

ADENOCARCINOMA MESONÉFRICO

Remanescentes do ducto mesonéfrico e seus túbulos são encontrados em até 22% das cérvices adultas. Carcinomas uterinos parecem derivar destes remanescentes, entretanto, são muito raros.

A idade das pacientes varia de 34 a 72 anos ( média de 52 a 55 anos). A maioria das pacientes apresenta queixa de sangramento anormal, freqüentemente com lesão cervical visível. Extensão para o segmento uterino baixo não é incomum. Ocasionalmente pode existir associação a adenocarcinoma endometrial. Apesar dos tumores geralmente serem amplamente infiltrativos, quase todos os tumores também envolvem a mucosa endocervical.

A maioria dos casos descrita está confinada à cérvice (estádio IB), existindo tendência para recorrências tardias. Carcinomas mesonéfricos estádio I parecem ter comportamento menos agressivo do que outros tumores Müllerianos. Postula-se que o carcinoma mesonéfrico pode atualmente estar sendo subdiagnosticado devido a sua semelhança com o adenocarcinoma endometrióide e outros carcinomas Müllerianos.