Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia

Epidemiologia do adenocarcinona do colo uterino

Dra Carmen Regina Nogueira de Carvalho

Prof. Dr. Julisa Chamorro Lascasas Ribalta

Epidemiologia, ciência que relaciona o agente etiológico, o hospedeiro, o meio ambiente e a doença caracteriza a análise de quais riscos uma população deve apresentar para adquirir uma determinada doença. Essa análise visa estabelecer medidas de prevenção, de rastreamento, diagnóstico e tratamento.

O câncer do colo uterino é a segunda causa de morte da mulher por neoplasia maligna.(1). Seu aparecimento está relacionado à infecção persistente, produzida pelo papilomavírus humano (HPV) de alto risco oncogênico (16 e18) com alta carga viral, associada ao tipo de comportamento da mulher como coitarca precoce, promiscuidade, DSTs, tabagismo, etc.; a erros de dieta; a causas sócio-ambientais tal como poluentes, falta de saneamento básico, orientação e rastreamento citológico; e a características imunológicas. Essas podem ser herdadas ou adquiridas na vigência a doenças que alteram a imunidade, como por exemplo, a infecção pelo vírus HIV ou após tratamentos com drogas imunossupressoras, e ainda à diminuição da imunocompetência atribuída ao envelhecimento, imunossenescência (4, 5, 8, 9, 10, 11, 15, 16).

Conseqüente aos programas de prevenção utilizando-se a citologia oncológica houve queda na incidência do carcinoma espinocelular, de 9,45/100.000 mulheres (1973 a1977) para 5,49/100.000 mulheres (1993 a 1996) que corresponde a um declínio de 41,9% (13). Nos Estados Unidos isto vem sendo notado desde 1988 na proporção de 2% ao ano, apesar da incidência no grupo étnico negro continuar duas vezes maior que no branco respectivamente 44,5/100.000 e 15,8/100.000 (12).

No Brasil esta taxa continua elevada apesar de estável desde 1975, a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA) para o ano 2.000 para casos novos foi de 20,48/100.000 mulheres e de morte por câncer de colo uterino foi de 4,25/100.000 mulheres (2). Mesmo em países desenvolvidos, a partir dos anos setenta, observou-se um aumento dos adenocarcinomas de 1,34/100.000 mulheres (1973 a 1977) para 1,73/100.000 mulheres (1993 a 1996) que corresponde uma elevação de 22,5%. Além disso, no período de 1973 a 1996, a proporção de casos de adenocarcinoma relativos à população de risco aumentou de 1,4 para 2,09/100.000 mulheres que corresponde a uma elevação de 49,3% (13).

O tipo de HPV que predomina no adenocarcinoma é o 18 ocorrendo em 56% dos casos (1). TENTI et al. (1996) (14), analisaram 138 adenocarcinomas e observaram ser a prevalência total da infecção pelo HPV de 84,8%. O tipo HPV 18 foi encontrado em 29,7% dos neoplasmas, o tipo16 em 28,3% dos casos e em 26,8% deles os 2 tipos estavam presentes.

Os fatores de risco para o adenocarcinoma são semelhantes aos encontrados para o carcinoma espinocelular porém, nos anos oitenta notou-se que no grupo das adultas jovens de classe social mais elevada, com boa escolaridade e não promíscuas, a incidência do adenocarcinoma era maior do que nas de mesma faixa etária, com baixa escolaridade e nível sócio-econômico inferior. Isto foi atribuído ao uso de anticoncepcional oral (ACO) e provável ação hormonal no epitélio endocervical. A gestação e a obesidade também foram consideradas fatores de risco para este tipo de neoplasia (3, 6, 7)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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