O microbioma vaginal corresponde ao conjunto de microrganismos que colonizam o ambiente vaginal e desempenham papel essencial na homeostase local e na saúde ginecológica. Este pode ser classificado em cinco perfis distintos, denominados Community State Types (CST): CST I (Lactobacillus crispatus dominante), CST II (Lactobacillus gasseri), CST III (Lactobacillus iners), CST V (Lactobacillus jensenii) e CST IV, caracterizado por maior diversidade bacteriana e predomínio de anaeróbios, como Gardnerella, Atopobium e Prevotella. Enquanto os CSTs dominados por Lactobacillus estão associados a um ambiente protetor, o CST IV reflete um estado disbiótico, relacionado a maior risco de infecções genitais e alterações neoplásicas.
O microbioma vaginal tem emergido como um importante modulador do risco de desenvolvimento do câncer do colo uterino. A composição microbiana, predominantemente dominada por espécies de Lactobacillus, exerce efeito protetor ao manter um pH vaginal baixo, produzir metabólitos antimicrobianos e regular a resposta imune local. A perda dessa dominância, com aumento da diversidade bacteriana e prevalência de espécies anaeróbias, tem sido associada a inflamação crônica e maior suscetibilidade à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV).
Estudos recentes demonstram que microbiomas disbióticos podem favorecer a persistência do HPV de alto risco, etapa essencial para a carcinogênese cervical. A inflamação local, mediada por citocinas pró-inflamatórias e pelo recrutamento de células imunes, pode comprometer a depuração viral, criando um microambiente permissivo para a integração do HPV ao genoma do hospedeiro. Além disso, metabólitos bacterianos específicos parecem influenciar a metilação do DNA e outras vias epigenéticas envolvidas na transformação neoplásica.
Assim, compreender a interação entre microbioma vaginal e infecção pelo HPV abre novas perspectivas para estratégias preventivas e terapêuticas, incluindo o uso de probióticos e moduladores do ecossistema vaginal como adjuvantes na prevenção da progressão para lesões intraepiteliais de alto grau e câncer cervical. A caracterização do microbioma pode, futuramente, ser incorporada como biomarcador de risco, contribuindo para programas personalizados de rastreamento e prevenção.
Referência:
- Mitra A, MacIntyre DA, Marchesi JR, Lee YS, Bennett PR, Kyrgiou M. The vaginal microbiota, human papillomavirus infection and cervical intraepithelial neoplasia: what do we know and where are we going next? Microbiome. 2016;4(1):58.
- Norenhag J, Du J, Olovsson M, Verstraelen H, Engstrand L, Brusselaers N. The vaginal microbiota, human papillomavirus and cervical dysplasia: a systematic review and network meta-analysis. BJOG. 2020;127(2):171-180.
- Usyk M, Zolnik CP, Castle PE, Porras C, Herrero R, Gradissimo A, et al. Cervicovaginal microbiome and natural history of HPV in a longitudinal study. PLoS Pathog. 2020;16(3):e1008376.
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Dra. Adriana Bittencourt Campaner é Professora Livre-docente / Adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Médica chefe da Clínica de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia da Santa Casa São Paulo. Presidente da Comissão Nacional Especializada PTGI FEBRASGO gestão 2024-2027 e Membro da diretoria da ABPTGIC Nacional.

