Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
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O tratamento do parceiro para prevenir a recorrência da vaginose bacteriana

MENSAGEM PRINCIPAL: A patogênese da vaginose bacteriana ainda é muito discutida e estudada. Na atualidade questiona-se a possibilidade de transmissão sexual. O fato é que a microbiota masculina é um fator preditivo de risco para a ocorrência da vaginose bacteriana e estudos mostram redução significativa da recorrência quando o parceiro é tratado.

 

A vaginose bacteriana (VB) é uma disbiose da microbiota vaginal que afeta 30% das mulheres mundo a fora e é associada com diversas sequelas obstétricas e ginecológicas. Guidelines internacionais recomendam metronidazol ou clindamicina como a primeira linha de tratamento para as mulheres afetadas, porém essa estratégia não resulta em cura sustentada, com uma incidência de recorrência em 3 meses chegando a 50%.

Apesar de a VB ter um perfil epidemiológico e microbiológico semelhante ao de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), sua patogênese ainda não é totalmente compreendida. Fato é que a VB episódica tem um período de incubação semelhante ao de outras ISTs bacterianas e está associada a novas parcerias sexuais, enquanto a VB recorrente tem uma prevalência 2x maior em mulheres com parceria fixa.

Estudos mostram que os homens podem ser hospedeiros de espécies bacterianas associadas à VB na uretra distal e prepúcio e que a microbiota peniana é um fator preditivo do risco de uma mulher apresentar VB.

 

Desenho do Estudo

Características Gerais

Estudo multicêntrico (envolveu 3 serviços de saúde sexual e 3 de planejamento familiar em 3 estados australianos), randomizado, em que 164 casais foram randomizados de abril de 2019 a novembro de 2023.

 

Critérios de Inclusão

Mulheres pré menopausa, > 18 anos, sem HIV, com sintomas de VB e critérios diagnósticos (presença de pelo menos 3 dos 4 critérios de Amsel* e um score de Nugent** de 4 a 10), com parceria sexual única nas últimas 8 semanas e recebendo tratamento de 1ª linha (metronidazol 400 mg via oral 2x/dia por 7 dias ou, se contraindicado, clindamicina creme vaginal 2% por 7 noites ou metronidazol gel vaginal 0,75% por 5 noites).

*Critérios de Amsel: Corrimento vaginal homogêneo, pH>4,5, teste das aminas positivo, presença de clue cells na microscopia.
**Score de Nugent: de 0 a 3 representa uma microbiota vaginal normal, 4 a 6 uma flora intermediária e 7 a 10 VB.

 

Randomização e Tratamento

A randomização foi feita estratificada pelos serviços de saúde, uso ou não de dispositivo intrauterino (DIU) e parceiro ser ou não circuncisado (ambos aumentam o risco de VB). Os casais foram divididos em um grupo de tratamento (mulher e parceiro tratando) e grupo controle (apenas a mulher tratando).

No grupo de tratamento (81 casais) os parceiros receberam metronidazol 400 mg via oral 2x/dia por 7 dias e foram orientados a passar clindamicina creme a 2% na glande do pênis também 2x/dia por 7 dias (com orientação aos circuncisados de abaixarem todo prepúcio para passarem em toda a glande). Não foi passado um creme placebo para o grupo controle pela preocupação de gerar alguma alteração na composição da microbiota peniana. Todos os participantes do estudo (grupo tratamento e grupo controle) foram orientados a não ter relação sexual pelo período do tratamento de 7 dias.

Questionários e amostras de conteúdo vaginal para realização do score de Nugent foram coletados nos serviços de saúde no início do estudo, 4 e 12 semanas após e no domicílio nos dias 8 e 8 semanas após o início do estudo. Durante todas as etapas do estudo os microscopistas não souberam da divisão dos grupos, scores de Nugent prévios, presença de clue cells ou resultado do teste das aminas.

 

Desfechos

O desfecho primário avaliado foi a recorrência da VB, definida por pelo menos 3 dos 4 critérios de Amsel e um score de Nugent de 4 a 10, 12 semanas após a realização do tratamento. O estudo foi interrompido em outubro de 2023 após análise dos primeiros 150 (de um total de 164) casais pela inferioridade do tratamento padrão exclusivo da mulher.

 

Resultados

A recorrência da VB em 12 semanas foi observada em 24 das 69 mulheres (35%) no grupo de tratamento e 43 das 68 mulheres (63%) no grupo controle. O tempo médio de recorrência foi de 73,9 dias no grupo de tratamento e 54,5 no grupo controle. Não houve associação entre recorrência e métodos contraceptivos utilizados ou práticas sexuais.

 

Discussão

Neste estudo, a adição do tratamento antimicrobiano tópico e oral para os parceiros sexuais durante o tratamento habitual das mulheres com VB resultou numa significativa redução na recorrência.

A população estudada tinha significativos fatores de risco para recorrência (87% tinha histórico de VB prévia, 80% dos parceiros não eram circuncisados e quase 1/3 eram usuárias de DIU), mas o estudo não foi feito com o objetivo de avaliar outros fatores se não o tratamento concomitante do parceiro.

Uma das limitações do estudo é o de ter sido feito em centros de saúde sexual, onde podem ter mulheres de maior risco e, portanto, não necessariamente refletir a realidade geral das mulheres. O estudo também foi interrompido antes do previsto devido à diferença significativa encontrada nos 2 grupos. Apesar de a equipe do laboratório e microscopistas desconhecerem os grupos, os participantes e clínicos do estudo sabiam a que grupo cada participante pertencia.

O estudo mostrou que o tratamento dos parceiros por 1 semana com metronidazol oral e clindamicina tópica, concomitante ao tratamento da mulher, resultou em menores taxas de recorrência da VB em 12 semanas do que o tratamento isolado da mulher.

 

Dra. Maria Eduarda Bellotti Leão

  • Professora Assistente do Depto de Ginecologia Escola Paulista de Medicina (UNIFESP).
  • Mestre em Cirurgia pela Universidade Federal do Amazonas.
  • Pós-graduação em Ginecologia Oncológica e Cirurgia Minimamente invasiva pelo Hospital Sírio Libanês SP.

 


Fonte: Vodstrcil LA, Plummer EL, Fairley CK, Hocking JS, Law MG, Petoumenos K, Bateson D, Murray GL, Donovan B, Chow EPF, Chen MY, Kaldor J, Bradshaw CS; StepUp Team. Male-Partner Treatment to Prevent Recurrence of Bacterial Vaginosis. N Engl J Med. 2025 Mar 6;392(10):947-957. doi: 10.1056/NEJMoa2405404. PMID: 40043236.