Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
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Estudo comparativo evidenciando a eficácia da vacina 9vHPV na prevenção de recidiva de doenças HPV induzidas após o tratamento da exérese de zona de transformação

MENSAGEM PRINCIPAL: O estudo demonstrou que, entre as participantes do ensaio que foram submetidas a cirurgia cervical para HSIL, a vacinação prévia com 9vHPV foi associada a uma incidência significativamente reduzida de doença subsequente relacionada a todos os nove tipos de HPV da vacina após a cirurgia cervical inicial.

O tratamento padrão para lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (HSIL) é a cirurgia excisional cervical (EZT). Embora eficaz, as mulheres tratadas para essas lesões permanecem com alto risco de desenvolver novas doenças HPV induzidas e inclusive o câncer cervical. As vacinas contra o HPV (a quadrivalente- 4vHPV e a nonavalente- 9vHPV) são eficazes na prevenção das infecções e das lesões causadas pelos tipos de HPV oncogênicos mais comuns. A 4vHPV protege contra o 16 e 18, responsáveis pelas lesões pré-neoplásicas e o câncer e o 6 e 11 principais causadores das verrugas genitais e da papilomatose laríngea. A vacina 9vHPV, especificamente, protege contra mais cinco tipos adicionais (31, 33, 45, 52 e 58), podendo prevenir cerca de 90% dos cânceres cervicais, 86–96% dos cânceres anogenitais e orofaríngeos relacionados ao HPV, e 70–85% das doenças cervicais de alto grau. Há um interesse crescente em entender se a vacinação de mulheres com uma primeira lesão relacionada ao HPV pode ajudar a prevenir o desenvolvimento de lesões subsequentes também causadas pelo vírus. O objetivo deste estudo foi descrever a eficácia da vacina 9vHPV na prevenção de lesões HPV induzidas subsequente relacionada aos sorotipos 6/11/16/18/31/33/45/52/58 em mulheres que foram submetidas a EZT para HSIL do colo do útero após terem recebido a vacinação contra o HPV.

O estudo analisou dados de três ensaios randomizados e duplo-cegos: o estudo V503-001 (comparando a vacina 9vHPV com a 4vHPV) e os estudos FUTURE I e II (ensaios controlados por placebo da vacina 4vHPV). Foram incluídas mulheres de 16 a 26 anos que receberam pelo menos uma dose da vacina e foram submetidas a cirurgia cervical após a vacinação e tiveram um acompanhamento de pelo menos 6 meses após a cirurgia. Para os tipos HPV 31/33/45/52/58, a eficácia da vacina 9vHPV foi comparada diretamente com o grupo da vacina 4vHPV do mesmo estudo. Para os tipos HPV 6/11/16/18, como não havia grupo placebo no ensaio da 9vHPV utilizou-se os dados dos estudos FUTURE I e II. No início de cada ensaio, as participantes receberam um regime de três doses da vacina 9vHPV, vacina 4vHPV ou placebo (no dia 1, mês 2 e mês 6). Exames genitais externos foram realizados, e coletas ginecológicas como teste de Papanicolau e a genotipagem (PCR) para HPV foram coletados no primeiro dia da vacinação, um mês após a última dose da vacina e em intervalos de 6 a 12 meses a partir de então. Lesões genitais externas ou internas suspeitas foram submetidas a biópsia. O procedimento de excisão eletrocirúrgica por alça (LEEP) foi o método preferencial para terapia definitiva para HSIL, adenocarcinoma in situ e lesões de baixo grau (LSIL) persistente.

A análise incluiu 295 receptoras da vacina 9vHPV, 722 da vacina 4vHPV e 493 do grupo placebo. A cirurgia cervical ocorreu em uma média de 1,7 anos após a primeira dose da vacina. No momento da cirurgia, cerca de 30,3% (HPV 6/11/16/18) e 32,1% (HPV 31/33/45/52/58) das participantes testaram positivo via PCR para os tipos de HPV contidos na vacina e cerca de 26% delas eram positivas para sorotipos de HPV não cobertos pela vacina 9vHPV. Entre as mulheres incluídas na análise completa que foram submetidas à cirurgia excisional cervical durante o período de acompanhamento pós-vacinação, para os tipos HPV 6/11/16/18, a incidência de novas lesões foi reduzida em 95,4% no grupo 9vHPV em comparação ao placebo histórico. Para os tipos HPV 31/33/45/52/58, a redução foi de 86,3% em comparação ao grupo que recebeu a vacina 4vHPV. A incidência de HSIL subsequentes foi numericamente menor no grupo 9vHPV (reduções de 69,6% para tipos 6/11/16/18 e 82,7% para tipos 31/33/45/52/58), mas esses valores não atingiram significância estatística devido ao pequeno número de casos observados. Entre as mulheres que testaram negativo para os tipos específicos de HPV durante a vacinação e no momento da cirurgia cervical, a eficácia da vacina foi de 100% para prevenir doenças cervicais, vulvares ou vaginais e condilomas relacionados ao HPV 6/11/16/18 e HPV 31/33/45/52/58) subsequentes.

Não há contraindicação para vacinar indivíduos com histórico de infecção ou doença por HPV. A eficácia observada não é terapêutica, mas sim profilática. A vacina funciona prevenindo novas infecções por outros tipos de HPV contidos na vacina ou a reinfecção pelo mesmo tipo após a cirurgia ter removido a carga viral local. No geral, o estudo demonstrou que, entre as participantes do ensaio que foram submetidas a cirurgia cervical, a vacinação prévia com 9vHPV foi associada a uma incidência significativamente reduzida de doença subsequente relacionada a todos os nove tipos de HPV da vacina após a cirurgia cervical inicial.

Entre as participantes do ensaio que foram submetidas a EZT, a vacinação prévia com a vacina 9vHPV (ou seja, de 0,1 a 4,4 anos antes da cirurgia) reduziu a incidência de lesões intraepiteliais cervicais e do trato genital inferior subsequente. Assim, o estudo demonstrou um benefício da vacinação com 9vHPV na redução do risco de recorrência e de doenças subsequentes após o tratamento. Isso pode ser útil para os médicos no aconselhamento de seus pacientes.

 

Dra. Ana Carolina Sica

  • Mestrado em Ciências da Saúde na Irmandade Santa Casa de São Paulo
  • Doutoranda em Ciências da Saúde na Irmandade Santa Casa de São Paulo
  • Preceptora voluntária do Setor de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia da Santa Casa São Paulo

Fonte: Joura E, Kjaer SK, Bautista O, Luxembourg A, Saah A, Giuliano Anna. Effect of Prior 9-Valent Human Papillomavirus Vaccination on Subsequent Lower Genital Tract Dysplasia After Cervical Excisional Surgery. Obstet Gynecol. 2026 Jan 1;147(1):73-82. doi: 10.1097/AOG.0000000000006113. Epub 2025 Oct 30.