Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
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O desafiador manejo dos parceiros masculinos das mulheres com HPV positivo

MENSAGEM PRINCIPAL: Evidências recentes recomendam que a paciente comunique sobre o diagnóstico para o parceiro, pois trará alguns benefícios. Parceiros de mulheres com lesões precursoras ou câncer de colo uterino pode estar sob um risco elevado de desenvolver câncer de orofaringe. Apesar de não haver atualmente um método de rastreio para o câncer de orofaringe e suas lesões precursoras não serem tão bem definidas com a de colo, a vacinação do parceiro pode diminuir o risco dessa neoplasia. O CDC não recomenda testar os parceiros masculinos de mulheres com diagnóstico de HPV por não haver métodos confiáveis nem protocolos específicos do que fazer com homens com teste positivo para HPV.

 

Introdução
O papilomavírus humano (HPV) é a infecção sexualmente transmissível (IST) mais prevalente no mundo, com implicações significativas a nível individual e de saúde pública. Apesar de existirem protocolos muito bem estabelecidos para mulheres com a infecção, para seus parceiros as recomendações ainda são muito limitadas e controversas na literatura, o que cria desafios muito grandes não só para as pacientes e seus parceiros como também aos profissionais de saúde.

O impacto emocional de um resultado positivo
Um resultado positivo para infecção pelo HPV pode gerar um estresse emocional significativo para o casal, muitas vezes superando a ansiedade gerada por uma citologia cervical alterada. Essa resposta “exagerada” é consequência da falta de conhecimento da população sobre o vírus e sua história natural e pelo fato de não haver antivirais para eliminação/tratamento do HPV.
Alguns estudos inclusive mostram elevação dos níveis de cortisol e aumento do risco cardiovascular em pacientes que tiveram a notícia recente da infecção. Logo, desenvolver técnicas para tentar atenuar esse estresse nas pacientes e seus parceiros deve ser uma prioridade nos profissionais que trabalham com esse tipo de patologia.

Possíveis neoplasias associadas ao HPV
Além de ser a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, o HPV é responsável por 4,5% de todos os casos de câncer no mundo. Apesar de a maioria das infecções pelo HPV clarear (ou permanecer em estado latente) espontaneamente, a persistência por tipos oncogênicos pode acontecer e evoluir para doenças graves. Quase 99% de todos os casos de câncer do colo uterino e muitos de vagina, vulva, ânus, pênis e orofaringe são relacionados ao HPV. Ele também pode gerar lesões benignas, como as verrugas genitais e a papilomatose respiratória recorrente.

Câncer cervical e estratégias de prevenção

Vacinação
A vacina para o HPV tem o potencial de eliminar a grande maioria dos casos de câncer de colo uterino e suas lesões precursoras, especialmente quando realizada antes da exposição ao vírus. Mas, mesmo em adultos já expostos, dos 18 aos 45 anos, a vacina continua sendo benéfica.

O rastreio atual para prevenção do câncer de colo
Apesar de a vacinação ser a principal estratégia, constitui a prevenção primária e o rastreio para o câncer de colo continua sendo essencial. A infecção persistente por tipos oncogênicos de HPV pode gerar as lesões intraepiteliais de alto grau (LIEAG), detectáveis por testes moleculares que detectam esses HPV de alto risco, os quais substituíram a citologia pela maior sensibilidade e valor preditivo negativo. O rastreio permite uma intervenção mais precoce na doença, reduzindo o risco do câncer propriamente dito e trazendo benefícios não só de saúde para a população como também econômicos.

Na maioria dos países o rastreio começa com testes para detecção do HPV com 25-30 anos, sendo realizado a cada 3-5 anos até os 65-70 anos. Mulheres com história de LIEAG devem ser rastreadas a cada 3 anos por 20-25 anos após o diagnóstico, independentemente da idade. Mulheres com mais de 65 anos sem rastreio prévio também devem ser incluídas.

O manejo de pacientes com um teste de DNA-HPV positivo
Um teste positivo para HPV mostra que há uma infecção, mas não necessariamente doença HPV induzida. Após um teste de DNA-HPV positivo deve ser realizada a citologia para avaliação das células e determinação do manejo, se apenas monitoramento ou encaminhamento para colposcopia. Novas estratégias de triagem, como uso do RNA-HPV, p16/Ki67 e testes de metilação vêm sendo estudados e validados, para tentar reduzir os encaminhamentos desnecessários para colposcopia e estratificar melhor o risco da doença.

Implicações para o parceiro de uma mulher com teste positivo para HPV
A infecção pelo HPV se estende além do nível individual e questões em como manejar o(s) parceiro(s) dessas pacientes vêm se tornando cada vez mais comuns.

Os parceiros masculinos devem ser informados do resultado do teste de HPV da mulher?
Uma preocupação comum nas mulheres com infecção pelo HPV é se elas devem ou não informar seus parceiros do diagnóstico. O CDC (Centers for Disease Control and Prevention) não considera obrigatório contar à(s) parceria(s), visto que o conhecimento pela(s) parceria(s) não prevenirá diretamente o desenvolvimento de doenças HPV induzidas e a origem da infecção é frequentemente impossível de determinar.

Uma consideração importante é que contar esse diagnóstico à(s) parceria(s) pode gerar desconfiança e trazer problemas ao casal. Logo, a decisão de compartilhar ou não esse diagnóstico deve ser individualizada, sempre pensando nas potenciais consequências emocionais e para o relacionamento. Em alguns casos, “minimizar” ou não contar sobre o diagnóstico pode ser o mais apropriado a se fazer.

Contudo, evidências recentes mostram que contar sobre o diagnóstico pode trazer alguns benefícios. Parceiros de mulheres com lesões precursoras ou câncer de colo uterino pode estar sob um risco elevado de desenvolver câncer de orofaringe. Apesar de não haver atualmente um método de rastreio para o câncer de orofaringe e suas lesões precursoras não serem tão bem definidas com a de colo, a vacinação do parceiro pode diminuir o risco dessa neoplasia.

O parceiro deve ser testado para HPV?
O CDC não recomenda testar os parceiros masculinos de mulheres com diagnóstico de HPV, por não haver métodos confiáveis nem protocolos específicos do que fazer com homens com teste positivo para HPV.

A transmissão do HPV em relações longas
Em relacionamentos mais longos, o parceiro sexual atual é frequentemente considerado a fonte da infecção. De fato, estudos mostram que 68% dos casais monogâmicos compartilham o mesmo tipo de HPV. Contudo, a história natural e a dinâmica da transmissão do HPV são eventos complexos. A possibilidade da latência viral, reativação de infecções passadas ou comportamento não monogâmico devem ser levados em conta, tornando praticamente impossível identificar a fonte de infecção.
Os parceiros devem ser informados que um teste positivo para HPV não necessariamente indica uma infecção recente. A reativação de um HPV que estava em estado latente de um parceiro prévio é uma explicação possível, mesmo com uma longa história de testes negativos anteriores.

Uso de condom e a transmissão para o parceiro
De acordo com o CDC, o uso consistente da camisinha reduz o risco da transmissão, acelera o clearance viral em pessoas infectadas e facilita a regressão das lesões intraepiteliais de baixo grau (LIEBG). Informar os parceiros desses benefícios pode encorajar o uso, apesar de muitas vezes ser difícil a aderência, especialmente em relacionamentos estáveis mais longos.
Porém é importante paciente e parceiro estarem cientes que a camisinha dá apenas uma proteção parcial, visto que o HPV também pode ser transmitido por práticas sexuais não penetrativas e sexo oral.

O parceiro de uma mulher com HPV deve ser vacinado?
No Plano Nacional Austríaco de Vacinação, a vacina para HPV já é recomendada para pessoas com risco maior de exposição: múltiplas parcerias sexuais e presença de IST na parceria sexual (mesmo que em relação monogâmica).

Homens infectados com HPV aumentam o risco de câncer de colo do útero nas suas parceiras femininas. Além disso, revisões sistemáticas e metanálises já mostraram que a vacina reduz o risco de recorrências de lesões HPV induzidas em mulheres (mesmo naquelas já expostas ao vírus).

Logo, a vacina para HPV deve ser considerada para ambos: mulheres com HPV e seus parceiros.

Conclusão
O manejo dos parceiros de mulheres com HPV permanece uma área incerta e controversa na literatura, apesar dos já muito bem estabelecidos protocolos para as mulheres. As recomendações atuais desencorajam testes de rotina para HPV nos parceiros masculinos, devido à ausência, até o momento, de testes validados e intervenções terapêuticas para possíveis casos positivos. 
O ponto de vista dos autores é que a notificação do parceiro não deve ser mandatória, mas que pode ser benéfica em alguns casos (como em homens em maior risco de cânceres relacionados ao HPV – orofaringe, anal e de pênis).

A vacinação do casal se apresenta como a estratégia atual mais promissora e estudos preliminares mostram redução da transmissão do HPV em mulheres vacinadas. A vacina oferece proteção e redução do risco dos cânceres HPV relacionados para ambos.

Mais estudos são necessários para o desenvolvimento de protocolos específicos para os parceiros masculinos de mulheres com HPV, focando não só na parte clínica mas também nos aspectos psicológicos que esta infecção pode trazer aos relacionamentos.

 

Dra. Maria Eduarda Bellotti Leão

  • Professora Assistente do Depto de Ginecologia Escola Paulista de Medicina (UNIFESP).
  • Mestre em Cirurgia pela Universidade Federal do Amazonas.
  • Pós-graduação em Ginecologia Oncológica e Cirurgia Minimamente invasiva pelo Hospital Sírio Libanês SP.

 


Fonte: Bornstein et al. The challenging approach to the management of male partners of HPV-positive women. Human Vaccines & Immunotherapeutics, 2025.