Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
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Carga global do câncer do colo do útero: Estimativas atuais, tendências temporais e projeções com base no Globocan 2022

MENSAGEM PRINCIPAL: em 2022, o câncer do colo do útero manteve-se como a quarta neoplasia mais incidente e a quarta causa de morte por câncer entre mulheres no mundo, com mais de 660 mil casos novos e cerca de 350 mil óbitos. A maior parte da carga concentra-se em países de baixo e médio desenvolvimento, refletindo desigualdade no acesso à prevenção e ao tratamento. Mantidas as taxas atuais, o aumento projetado até 2050 será impulsionado principalmente por fatores demográficos, reforçando que a redução da doença depende da implementação efetiva, em escala, de vacinação contra HPV e rastreamento organizado.

O estudo baseado no GLOBOCAN 2022 apresenta estimativas globais de incidência e mortalidade por câncer do colo do útero, integrando análise de tendências temporais e projeções futuras.[1]

Esses dados permitem avaliar a magnitude da doença, sua distribuição entre regiões e sua relação com a organização dos sistemas de saúde.

O conceito de carga global de doença, conforme definido pelo Global Burden of Disease (GBD), refere-se à quantificação do impacto de uma condição de saúde em uma população, considerando não apenas a mortalidade, mas também a morbidade.[2]

Essa medida é expressa por meio dos DALYs (disability-adjusted life years), que correspondem à soma dos anos de vida perdidos por morte precoce (YLL) e dos anos vividos com incapacidade (YLD), permitindo estimar a perda total de anos de vida saudável associada à doença.[2]

Em síntese, esse indicador mensura o peso que as doenças e lesões impõem à sociedade, sendo fundamental para compreender o perfil epidemiológico e orientar a definição de ações em saúde pública.

O estudo integra as estimativas atuais, a análise de tendências e as projeções futuras, permitindo avaliar não apenas a magnitude da doença, mas também sua evolução ao longo do tempo e em cenários diversos.[1]

Em 2022, foram estimados 662.044 novos casos e 348.709 mortes por câncer do colo do útero no mundo.[1]

As taxas padronizadas por idade foram de aproximadamente 14,1 casos por 100.000 mulheres e 7,1 mortes por 100.000 mulheres.[1]

Mais de 85% dos casos e cerca de 90% das mortes ocorreram em países de baixo e médio índice de desenvolvimento humano, com China e Índia concentrando parcela significativa da carga global.[1]

Com relação à idade, a maior parte dos diagnósticos ocorre em mulheres com 40 anos ou mais, embora análises específicas em alguns contextos indiquem mudanças no comportamento, com a doença se apresentando em faixas etárias mais jovens.[1]

O principal achado do estudo não é apenas a magnitude da doença, mas sua distribuição. O câncer do colo do útero permanece fortemente associado a desigualdades estruturais, com maior carga em regiões onde a cobertura vacinal é baixa, o rastreamento não é organizado e o acesso ao tratamento é limitado.

A persistência da doença está relacionada à dificuldade de implementar estratégias de prevenção de forma abrangente e contínua. A existência de métodos eficazes não se traduz, de forma uniforme, em redução da incidência e da mortalidade.

Nesse contexto, o câncer cervical pode ser entendido como marcador do desempenho dos sistemas de saúde, refletindo diferenças na capacidade de alcançar a população-alvo, garantir seguimento e tratar adequadamente as lesões precursoras e os casos invasivos.

Em países com programas organizados de rastreamento e vacinação, observa-se redução da mortalidade e, em alguns casos, da incidência.[1]

Esse comportamento, no entanto, não é homogêneo, e há regiões com manutenção ou aumento das taxas.

O estudo identifica aumento relativo de casos de início precoce (antes dos 40 anos) em países em transição epidemiológica.[1]

As projeções indicam aumento de aproximadamente 56,8% nos casos e 80,7% nas mortes até 2050, resultando em cerca de 1 milhão de casos anuais.[1]

Para o especialista em PTGI e colposcopia, os dados reforçam que a redução da carga da doença depende da integração entre rastreamento, diagnóstico e tratamento.

A incorporação de testes de HPV como rastreamento primário tende a aumentar a sensibilidade, mas exige protocolos bem definidos para evitar encaminhamentos excessivos à colposcopia e sobrecarga dos serviços.

A colposcopia mantém papel central na confirmação diagnóstica e na condução das lesões precursoras, sendo fundamental garantir qualidade técnica para reduzir tanto subdiagnóstico quanto sobretratamento.

A orientação sobre vacinação contra HPV deve fazer parte da prática clínica, considerando seu impacto na prevenção primária.

Os dados reforçam a superioridade de modelos de rastreamento organizado em relação ao rastreamento oportunístico.

A efetividade das estratégias depende de cobertura populacional, sistemas de convocação ativa e garantia de seguimento.

A transição para rastreamento baseado em HPV e a ampliação da cobertura vacinal representam estratégias custo-efetivas para redução da incidência e da mortalidade no médio e longo prazo.

A concentração da carga da doença em países de menor desenvolvimento indica que o principal desafio é estrutural, envolvendo acesso, organização do cuidado e capacidade de resposta dos sistemas de saúde.

As estimativas do GLOBOCAN são baseadas em registros populacionais com qualidade variável entre países.[1]

As projeções consideram estabilidade das taxas atuais e não incorporam mudanças decorrentes da ampliação de programas de vacinação e rastreamento.[1]

Indicadores agregados, como o índice de desenvolvimento humano, não permitem identificar diretamente os componentes específicos responsáveis pelas diferenças observadas.

O câncer do colo do útero permanece como uma doença evitável com elevada carga global, concentrada em contextos de menor acesso à prevenção e ao tratamento.

O aumento projetado da incidência e da mortalidade está relacionado à manutenção dessas desigualdades, mais do que à ausência de tecnologia.

A carga da doença pode ser expressa em DALYs (disability-adjusted life years), que combinam os anos de vida perdidos por morte precoce (YLL) e os anos vividos com incapacidade (YLD).[2]

No câncer cervical, essa métrica é particularmente relevante por afetar mulheres em idade produtiva, resultando em perda significativa de anos de vida saudável.

A redução dessa carga depende da ampliação da vacinação contra HPV, da implementação de rastreamento com cobertura adequada e da garantia de diagnóstico e tratamento em tempo oportuno.

Conclusão

O câncer do colo do útero permanece como uma doença evitável com elevada carga global, concentrada em contextos de menor acesso à prevenção e ao tratamento. O aumento projetado da incidência e da mortalidade reflete um cenário inercial demográfico, indicando que a manutenção dessas desigualdades, mais do que a ausência de tecnologia, impulsionará a carga da doença caso não haja intervenção.[2] A métrica de DALYs evidencia o peso desproporcional dessa neoplasia, por afetar mulheres em idade produtiva e resultar em perda significativa de anos de vida saudável.

A reversão desse cenário e o alcance das metas de eliminação propostas pela Organização Mundial da Saúde dependem da implementação de rastreamento organizado com, no mínimo, 70% de cobertura populacional.[3] A transição para o rastreamento primário com testes de HPV, como recentemente incorporado nas diretrizes brasileiras,[4] é essencial por sua alta sensibilidade, mas exige a adoção de estratégias de triagem adequadas para manter o valor preditivo positivo e mitigar a sobrecarga dos serviços.

Adicionalmente, a colposcopia deve evoluir para um modelo de manejo baseado em risco, conforme preconizado pela ASCCP, combinando o histórico de rastreamento com o resultado atual para orientar a tomada de decisão clínica.[5] Por fim, o aumento relativo de casos de início precoce em países em transição epidemiológica reforça a urgência de otimizar as taxas de vacinação profilática contra o HPV em pré-adolescentes, atuando na janela de oportunidade primária para a prevenção.[1] [3]

Dra. Cristiane Cruz Nervo

  • Coordenadora do Setor de Colposcopia do Laboratório Hermes Pardini – SP.
  • Médica assistente do Setor de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia da Santa Casa São Paulo.
  • Apoio pedagógico da Pós-graduação de PTGI e colposcopia da Faculdade Sírio Libanês.

Fonte (referências bibliográficas):

  1. Wu J, Jin Q, Zhang Y, Ji Y, Li J, Liu X, et al. Global burden of cervical cancer: current estimates, temporal trend and future projections based on the GLOBOCAN 2022. J Natl Cancer Cent. 2025;5(3):322-329. https://doi.org/10.1016/j.jncc.2024.11.006
  2. GBD 2019 Diseases and Injuries Collaborators. Global burden of 369 diseases and injuries in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet. 2020;396(10258):1204–1222. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30925-9
  3. World Health Organization. Global strategy to accelerate the elimination of cervical cancer as a public health problem. Geneva: World Health Organization; 2020. https://www.who.int/publications/i/item/9789240014107
  4. Ministério da Saúde (BR), Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: Parte I – Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. https://www.febrasgo.org.br/images/2024/relatorio-preliminar-diretrizes-brasileiras-para-o-rastreamento-do-cancer-do-colo-do-utero-parte-i-rastreamento-organizado-utilizando-testes-moleculares-para-deteccao-de-dna-hpv-oncogenico.pdf
  5. Perkins RB, Guido RS, Castle PE, Chelmow D, Einstein MH, Garcia F, et al. 2019 ASCCP Risk-Based Management Consensus Guidelines for Abnormal Cervical Cancer Screening Tests and Cancer Precursors. J Low Genit Tract Dis. 2020;24(2):102-131. https://doi.org/10.1097/LGT.0000000000000525