Introdução
A tecnologia de Radiofrequência (RF) é utilizada na área anogenital em várias opções terapêuticas, funcional e estética, com frequente intercâmbio entre essas utilizações, tanto no colo uterino, como na vagina, vulva, períneo e região perianal e anal. Antigamente os procedimentos eletrocirúrgicos eram realizados apenas com equipamentos de baixa frequência ( aproximadamente 500KHz), com resultados interessantes de corte e hemostasia, porém, com certas limitações. Hoje, com a evolução de determinados equipamentos para a alta frequência ( 4MHz) e o desenvolvimento tecnológico de maior controle e adequação da oferta de energia às diferentes impedâncias teciduais, conseguimos efeitos estritamente adequados para ação epidérmica, dérmica, ou mais profunda, além de incisões/excisões com maior precisão e mínimo efeito térmico lateral à ponta de toque do eletrodo. Esse controle de efeitos térmicos permite regeneração e cicatrização tecidual de qualidade, e o não comprometimento de margens cirúrgicas para estudo histopatológico. Para minimizar o efeito térmico, todo procedimento eletrocirúrgico precisa ser realizado na velocidade e técnica adequadas, sendo portanto, operador dependente, mas a curva de aprendizado na radiofrequência é curta.
Para o modo cirúrgico, procedimentos de incisão, excisão e ablação, utiliza-se a RF contínua, em ondas de Corte mais puro (aproximadamente 90% de corte e 10% de coagulação simultânea), ou as ondas misturadas para maior efeito hemostático/coagulação (80% – 20%, 70-30% ou 50%-50%), em tecidos mais vascularizados. A onda de Coagulação é utilizada para hemostasia de vasos mais calibrosos e vaporização de lesões mais queratinizadas.
No colo uterino utilizamos RF contínua para biópsias, exérese de pólipos e drenagem de cistos de retenção volumosos, exérese da zona de transformação, vaporização de lesões (no tratamento de ectopia extensa sintomática ou de lesões precursoras de baixo grau persistentes, por exemplo). Na vagina deve-se ter cuidado com biópsias e excisões com eletrodos em alça devido à proximidade com outras estruturas, limitando o uso às paredes laterais, sempre com cautela.
O modo de RF Pulsada tem aplicações interessantes para tratamentos ablativos/destrutivos e até excisionais de pequenas lesões, especialmente nas paredes vaginais e na vulva, devido ao controle do efeito térmico de profundidade. São exemplos de utilização: vaporização de neoplasia intraepitelial vaginal, vulvar e perianal, condilomas, queratoses seborreicas, angioqueratomas, pólipos fibroepiteliais, cistos sebáceos, entre outras possibilidades. A RF do tipo Single Pulse, determinando o tempo de oferta da potência escolhida em cada pulso; utilizada com eletrodo de multiagulhamento térmico a 1 ou 2 mm de profundidade, no estímulo de regeneração mais profunda de cicatrizes cirúrgicas (sequelas de foliculites profundas, retrações focais de cicatriz de episiotomia ou cesariana), para retração de plicomas anais, ou para epilação com agulha única. São exemplos de utilização da RF pulsada na dermatologia, oftalmologia e cirurgia plástica: olheiras, flacidez, rugas periorais, rugas estáticas; rugas órbito-ocular, estrias, lóbulo de orelha, cicatriz de acne, cicatrizes distróficas, epilação.
A RF fracionada microablativa (RFFMA) produz micropontos térmicos estimulatórios na epiderme e derme, com preservação de tecido íntegro interveniente, que será o responsável para promover a regeneração tecidual. A energia é transmitida ao tecido através de eletrodo com 32 a 64 microagulhas com 0,2 mm de espessura cada agulha, e que distam 1 mm entre si; as agulhas não penetram, apenas tocam o tecido para passar a energia. O efeito térmico é minimamente microablativo superficial e não ablativo na profundidade, completamente mensurável, variando no total de 0,5 a 1 mm incluindo epiderme e derme. Essa ação térmica controlada resulta na melhora do trofismo tecidual, com eliminação ou redução de sintomas como atrofia e flacidez vulvovaginal, síndrome geniturinária, incontinência urinária de esforço, frouxidão vaginal, e na melhora da saúde e microbiota vaginal, com evidências científicas mais robustas, e várias outras indicações ginecológicas e corporais, incluindo a melhora estética da flacidez tecidual nos lábios vulvares e monte pubiano e regiões adjacentes como virilhas e face interna das coxas, melhorando a textura e até coloração da pele. Outras situações: na atrofia e fibrose após radioterapia pélvica e braquiterapia, como relatos de casos. Nas regiões perineal, perianal e anal, tem sido utilizado também para melhora da atrofia, fissuras crônicas, e na retração de plicomas anais.
As complicações com tratamentos térmicos são raros relatos de queimaduras, devido técnica inadequada. Existe possibilidade de hipercromia ou hipocromia residual nos tratamentos destrutivos, como em qualquer outro método destrutivo térmico ou medicamentoso, porém, frequentemente é reversível em 2 a 6 meses.
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Dra. Márcia Farina Kamilos
- Preceptora da Colposcopia e Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia do Conjunto Hospitalar do Mandaqui – São Paulo
- Presidente do Capítulo de São Paulo da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia, 2019 a 2025
- Diretora Científica do Capítulo de São Paulo da ABPTGIC, 2025 a 2028
- Conselheira Fiscal da ABPTGIC Nacional
- ORCID: iD://orcid.org/0000 0003-2558-3997

