Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
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Excisão incompleta de neoplasia intraepitelial cervical como preditor do risco de doença recorrente — estudo de acompanhamento de 16 anos

MENSAGEM PRINCIPAL: esse estudo demonstra que a excisão incompleta de NIC 2/3, especificamente em margens endocervicais comprometidas, eleva substancialmente o risco de persistência ou recidiva de NIC 2+. Um achado relevante foi a associação independente entre comorbidades sistêmicas e a falha de tratamento, sugerindo que o estado imunológico da paciente influencia a persistência da doença. O uso combinado do status da margem com o teste de DNA HPV de alto risco mostrou-se mais importante para a estratificação de risco do que quando avaliados isoladamente.

 

Introdução

Mulheres tratadas para neoplasia intraepitelial cervical de alto grau (NIC 2 ou 3) apresentam um risco elevado e persistente de desenvolver câncer cervical. Embora fatores como o status das margens cirúrgicas, idade mais avançada e persistência da infecção pelo papilomavírus humano de alto risco tenham sido amplamente investigados como preditores de falha terapêutica, ainda há um debate sobre qual combinação de fatores identifica com maior precisão as pacientes com maior risco de recidiva.

Objetivo

A proposta do estudo foi avaliar o risco a longo prazo de persistência ou recidiva de NIC 2+ em mulheres submetidas a tratamento excisional por NIC 2/3, avaliando fatores como o status e a localização anatômica das margens, a presença de comorbidades e o status do exame de DNA HPV pós-tratamento.

Materiais e Métodos

Trata-se de um estudo prospectivo que incluiu 991 mulheres tratadas cirurgicamente com excisão da zona de transformação do colo uterino entre 2000 e 2007. Os dados foram extraídos do Registro Nacional de Rastreamento Cervical Sueco e de prontuários médicos, abrangendo histopatologia, modalidade de tratamento, comorbidades (como doenças autoimunes, HIV, diabetes e transplantes) e testes de DNA HPV durante o seguimento. O acompanhamento teve mediana de 10 anos (máximo de 16 anos). A incidência cumulativa de NIC 2+ foi analisada via curvas de Kaplan-Meier e os determinantes foram avaliados por regressão de Cox.

Resultados

 Durante o seguimento, 111 pacientes (11,2%) foram diagnosticadas com NIC 2+ persistente ou recorrente. Mulheres com margens positivas apresentaram um risco significativamente maior de recidiva em comparação com as pacientes com margens negativas (HR ajustado 2,67; IC 95% 1,81–3,93). A análise por localização anatômica revelou que o risco foi maior quando as margens endocervicais eram positivas (HR 2,72). Margens ectocervicais isoladas não aumentaram o risco de persistência ou recidiva da doença de forma significativa. Além disso, a presença de comorbidades foi um preditor independente de recidiva (HR 2,23), assim como a detecção de DNA HPV persistente durante o seguimento.

Discussão

A taxa de recidiva encontrada (cerca de 12%) foi superior à de meta-análises anteriores, o que é atribuído ao longo período de acompanhamento, permitindo a detecção de recidivas tardias. O estudo destaca-se por demonstrar que a gravidade da lesão inicial não prediz a recorrência se a excisão obtiver margens cirúrgicas livres. Um achado relevante foi a associação independente entre comorbidades sistêmicas e a falha de tratamento, sugerindo que o estado imunológico da paciente influencia a persistência da doença. O uso combinado do status da margem com o teste de DNA HPV de alto risco mostrou-se mais importante para a estratificação de risco do que quando avaliados isoladamente.

Conclusão

A excisão incompleta de NIC 2/3, especificamente em margens endocervicais comprometidas, eleva substancialmente o risco de persistência ou recidiva de NIC 2+. Os resultados sugerem que o seguimento pós-operatório deve ser intensificado para esse grupo de pacientes, especialmente quando há associação com comorbidades clínicas ou persistência de DNA HPV de alto risco, visando equilibrar a detecção precoce das falhas terapêuticas com a prevenção do sobretratamento.

 

Dr. Eduardo Borges Coscia

  • Professor Mestre da Disciplina de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Sorocaba PUC-SP
  • Coordenador do serviço de PTGI da Faculdade de Medicina de Sorocaba PUC-SP
  • Especialista em Oncoginecologia pelo Instituto Brasileiro de Controle do Câncer IBCC-SP.

Currículo Latteshttps://lattes.cnpq.br/8960580269692271


Fonte: Alder S, Megyessi D, Sundstro¨m K, et al. Incomplete excision of cervical intraepithelial neoplasia as a predictor of the risk of recurrent disease— a 16-year follow-up study. Am J Obstet Gynecol 2020; 222:172. e1-12.