As úlceras genitais representam uma condição clínica frequente em consultórios, sendo causadas principalmente por agentes infecciosos. O diagnóstico preciso e o tratamento adequado são essenciais para prevenir complicações, transmissão e impacto na qualidade de vida das pacientes. Embora a apresentação clínica seja sugestiva em muitos casos, o diagnóstico baseado exclusivamente no aspecto da lesão apresenta baixa acurácia.
Os principais agentes etiológicos incluem:
🔹 Herpes simplex vírus (HSV-1 e HSV-2) – responsável pela maioria das úlceras genitais recorrentes. Caracteriza-se por múltiplas vesículas dolorosas que evoluem para úlceras superficiais, podendo ocorrer recorrências.
🔹 Treponema pallidum (sífilis primária) – cancro duro, geralmente único, de bordas elevadas, fundo limpo e indolor, frequentemente acompanhado de linfadenopatia regional.
🔹 Haemophilus ducreyi (cancróide) – úlceras dolorosas, múltiplas, de fundo purulento e bordas irregulares, frequentemente associadas a bubão inguinal.
🔹 Chlamydia trachomatis (sorotipos L1-L3) – linfogranuloma venéreo, podendo iniciar com pequena úlcera transitória, seguida de linfadenite inguinal e manifestações anorretais.
🔹 Klebsiella granulomatis – donovanose, doença rara, caracterizada por lesões ulcerovegetantes, de evolução crônica, bordas granulomatosas e sangramento fácil.
A avaliação clínica deve incluir história sexual detalhada, inspeção cuidadosa da vulva, vagina, colo uterino e região perianal (exame microscópico direto e biópsia em casos duvidosos), além da palpação dos linfonodos inguinais. Sempre que possível, exames laboratoriais como PCR para HSV, testes treponêmicos e não treponêmicos para sífilis e a investigação para HIV devem fazer parte da abordagem.
As diretrizes internacionais recomendam não retardar o tratamento quando houver forte suspeita clínica, especialmente para sífilis e herpes genital, reduzindo complicações, interrompendo a cadeia de transmissão e diminuindo o risco de infecção pelo HIV. O tratamento depende do agente etiológico.
O acompanhamento para avaliar a resolução das lesões e o teste de parceiros sexuais é fundamental.
Úlceras genitais infecciosas requerem abordagem multidisciplinar, envolvendo diagnóstico clínico, laboratorial e tratamento adequado, além de aconselhamento sobre práticas sexuais seguras para evitar reinfecções e propagação.
Reconhecer precocemente uma úlcera genital é mais do que tratar uma lesão: é interromper a transmissão das ISTs, prevenir complicações e promover cuidado integral à saúde sexual.
CLIQUE AQUI e assista este conteúdo em formato de vídeo.
Referências
- Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines. (Acesso 2026).
- Hook EW 3rd, Marra CM. Syphilis. In: Holmes KK, Sparling PF, Stamm WE, et al., editors. Sexually Transmitted Diseases. 4th ed. McGraw-Hill; 2008.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT-IST).2022.
- International Union against Sexually Transmitted Infections (IUSTI). European Guideline for the Management of Genital Ulcer Disease. 2024.
- World Health Organization (WHO). Guidelines for the Management of Sexually Transmitted Infections. 2021.
Dra. Gianna Roselli Venâncio é Mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina do ABC. Doutoranda em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina do ABC. Professora afiliada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina do ABC. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/8050940121533258.

