Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
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Caracterização clinicopatológica e molecular do carcinoma basocelular (CBC) em sítios protegidos do sol

MENSAGEM PRINCIPAL: Esse estudo de série de casos explica a questão do carcinoma basocelular (CBC) ocorrer em sítios protegidos do sol, como na região genital. CBCs de sítios protegidos são geneticamente CBCs verdadeiros (drivers em PTCH1/via Hh), justificando terapia-alvo com inibidores de Hedgehog (vismodegibe, sonidegibe) em casos avançados/inoperáveis. O mecanismo mutagênico é distinto do CBC clássico — não relacionado a UV. O comportamento biológico é mais indolente que o CBC convencional da série (que incluía casos metastáticos/agressivos por viés de seleção). Esse achado é interessante porque sugere que, além da via Hedgehog clássica, uma via acessória (Hippo-YAP) pode contribuir especificamente para a patogênese dos CBCs que surgem em áreas genitais/perianais — um mecanismo pouco explorado até então e que pode ajudar a explicar por que esses tumores surgem sem exposição a UV.

 

Contexto e Justificativa

O CBC é o câncer de pele mais comum, tipicamente causado por dano cumulativo de radiação UV, que ativa a via Hedgehog (Hh) através da inativação do gene PTCH1. Por isso, ocorre predominantemente em cabeça e pescoço. Raramente (<1% dos casos), o CBC surge em áreas protegidas do sol — vulva, região perianal e escroto — onde o papel da radiação UV é implausível e as alterações moleculares nunca haviam sido bem caracterizadas. Além disso, há sobreposição morfológica importante com carcinoma escamoso basaloide, carcinoma tricoblástico e tricoblastoma, tornando o diagnóstico desafiador nesses sítios.

 

Casuística e Métodos

  • 14 casos de CBC em sítios protegidos (7 perianais, 4 vulvares, 3 escrotais), de 2008 a 2023
  • 8 casos de CBC convencional (fotoexposto) como grupo comparativo
  • Sequenciamento por NGS (OncoPanel — 447 genes relacionados a câncer, incluindo genes da via Hh)
  • Critérios diagnósticos histológicos rigorosos: proliferação basaloide atípica, paliçada periférica, fenda de retração (clefting), estroma fibromixoide

 

Achados Clínicos e Histológicos

  • Idade média semelhante entre grupos (~67 anos)
  • Padrões arquiteturais variados no grupo sítio-protegido: superficial e nodular (mais frequente, 6 casos), nodular puro, nodular-infiltrativo, e formas mistas com componente micronodular
  • Diferenciação escamoide em 4/14 casos
  • Comportamento clínico indolente: recorrência em apenas 21% dos casos (todos com margens cirúrgicas positivas), nenhuma recorrência após cirurgia de Mohs, e nenhuma metástase

 

Achados Moleculares — o Ponto Central do Estudo

  • PTCH1 alterado em 93% dos CBCs de sítios protegidos (vs. 100% no CBC convencional) — confirma que são CBCs bona fide
  • Assinatura mutacional de UV totalmente ausente nos sítios protegidos (vs. 100% presente no CBC convencional) — evidência forte de que a carcinogênese aqui não depende de UV, e sim de outro mecanismo (possivelmente estresse oxidativo)
  • PTPN14 alterado em 36% dos casos de sítio protegido, contra 0% no CBC convencional — achado novo e interessante, sugerindo papel da via Hippo-YAP nesses tumores
  • TP53 e NOTCH1 alterados com menor frequência que no CBC convencional
  • Um caso (caso 8) não mostrou nenhuma alteração da via Hh detectável, mas manteve morfologia clássica de CBC

 

Conclusões e Relevância Clínica

  1. CBCs de sítios protegidos são geneticamente CBCs verdadeiros (drivers em PTCH1/via Hh), justificando terapia-alvo com inibidores de Hedgehog (vismodegibe, sonidegibe) em casos avançados/inoperáveis.
  2. O mecanismo mutagênico é distinto do CBC clássico — não relacionado a UV.
  3. Comportamento biológico é mais indolente que o CBC convencional da série (que incluía casos metastáticos/agressivos por viés de seleção).
  4. Reforça que o diagnóstico de CBC não deve ser descartado pela localização atípica (vulva, região perianal, escroto), mesmo sendo raro nesses sítios.

 

Explicação das Vias Moleculares

 

Via Hedgehog (Hh)

É uma via de sinalização celular fundamental no desenvolvimento embrionário (padronização de tecidos, formação de membros, tubo neural) e que, na vida adulta, permanece envolvida na manutenção e reparo de tecidos, incluindo folículos pilosos e pele.

 

Como funciona normalmente:

  • O receptor PTCH1 (Patched-1) fica na membrana celular e, em condições basais, inibe o receptor SMO (Smoothened)
  • Quando o ligante Hedgehog (Sonic Hedgehog, por exemplo) se liga a PTCH1, essa inibição é retirada, e SMO fica livre para ativar fatores de transcrição da família GLI, que entram no núcleo e ligam genes-alvo proliferativos

 

Por que importa no CBC:

  • Na maioria dos CBCs (>90%), há mutações que inativam PTCH1 (perda de função) — sem PTCH1 funcional para “segurar o freio”, a via fica constitutivamente ativada, mesmo sem o ligante presente
  • Isso gera proliferação celular descontrolada, típica dos queratinócitos basaloides do CBC
  • É por isso que os inibidores de SMO (vismodegibe e sonidegibe) são eficazes no tratamento do CBC avançado: eles “reconstituem” o freio bloqueando SMO diretamente, mesmo com PTCH1 mutado

No artigo, o achado central é que essa mesma via está ativada nos CBCs de vulva/região perianal — só que por mecanismo diferente (não induzido por UV), o que sustenta a classificação diagnóstica e a resposta terapêutica esperada aos inibidores de Hedgehog.

 

Via Hippo-YAP

É uma via de controle de tamanho de órgão e proliferação celular, funcionando essencialmente como um “supressor tumoral” que impede o crescimento celular excessivo.

 

Como funciona normalmente:

  • Uma cascata de quinases (MST1/2 → LATS1/2) fica ativa e fosforila a proteína YAP (Yes-Associated Protein)
  • YAP fosforilada fica retida no citoplasma e é degradada — inativa
  • Quando a via Hippo está “desligada” (ex.: por perda de reguladores negativos), YAP não é fosforilada, migra para o núcleo e ativa genes de proliferação e sobrevivência celular — comportando-se como oncoproteína.

 

Papel do PTPN14:

  • PTPN14 é um regulador negativo de YAP — ou seja, ele ajuda a manter YAP inativa/fora do núcleo
  • Quando PTPN14 sofre mutação de perda de função (como visto em 36% dos casos de CBC de sítio protegido no estudo), YAP fica “liberada” para atuar no núcleo, promovendo proliferação celular de forma adicional à via Hedgehog

No contexto do artigo, esse achado é interessante porque sugere que, além da via Hedgehog clássica, uma via acessória (Hippo-YAP) pode contribuir especificamente para a patogênese dos CBCs que surgem em áreas genitais/perianais — um mecanismo pouco explorado até então e que pode ajudar a explicar por que esses tumores surgem sem exposição a UV.

 

Dra. Nicole Cunegatti

  • Médica ginecologista. Formada em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Fêmina, em Porto Alegre/RS, um dos principais centros de referência em saúde da mulher do Sul do Brasil.
  • Atualmente, realiza especialização em Patologia do Trato Genital Inferior (PTGI) na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), instituição reconhecida nacionalmente pela excelência em assistência, ensino e pesquisa.

 


Fonte:

  1. Draper E, Li YY, Mahadevan NR, Laga AC, Hanna J, Russell-Goldman E. Clinicopathologic and Molecular Characterization of Basal Cell
  2. Carcinoma Arising at Sun-protected Sites. Am J Surg Pathol. 2025;49(4):328–335.
About the author

Médica ginecologista. Formada em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Fêmina, em Porto Alegre/RS, um dos principais centros de referência em saúde da mulher do Sul do Brasil. Atualmente, realiza especialização em Patologia do Trato Genital Inferior (PTGI) na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), instituição reconhecida nacionalmente pela excelência em assistência, ensino e pesquisa.